quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Seis perguntas que precisam ser feitas sobre a epidemia “dengue-zika-chikungunya” no Brasil

São ainda muitas as dúvidas que rondam a recente epidemia “tríplice” que avança no País. O trio dengue-zika-chikungunya ataca com força em meio a um mar de incertezas – e novas doenças. Os casos se multiplicam, há muita pressão por soluções, mas pouco se sabe. Nesse cenário, é fundamental questionar os pontos não comprovados que envolvem a epidemia para aprofundar o debate.
A extensão dos distúrbios neurológicos observados em crianças, por exemplo, está levando os especialistas a falarem não só mais apenas em microcefalia, mas em uma “síndrome fetal do zika”. Isso ocorre em um momento em que os pesquisadores não conseguem dar certeza ainda se é o mesmo o zika o responsável pelas más formações. 
Por isso, na seção #Ideiaseprovocações de Saúde!Brasileiros, que foi criada para divulgar informações que não ocupam os discursos centrais de instituições, reunimos algumas dúvidas que estão sendo levantadas em meio ao caos sanitário que vivemos neste momento no Brasil. 
O texto que se segue destaca as importantes preocupações levantadas pela nota técnica lançada na terça-feira (2) pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

1 – Por que continuamos a insistir no combate ao mosquito somente?

Os profissionais de saúde ligados a cinco grupos de trabalho da Abrasco criticam as estratégias que vem sendo adotadas no País para o controle do mosquito que, segundo estudos, mostraram-se ineficazes por 40 anos de uso da estratégia.
A Abrasco questiona a estratégia do Ministério da Saúde de intensificar “o combate ao mosquito” e pedir “ajuda da população” apenas no recrudescimento da epidemia – e não levar em conta outros fatores, como a falta de saneamento básico nas regiões afetadas.  
Há resíduos sólidos próximos a residências, fornecimento intermitente de água, esgoto a céu aberto. Soma-se a isso o fato de que o Plano Nacional de Saneamento Básico sofreu vários cortes e não deve decolar nos próximos anos pelas perdas impostas no ajuste fiscal. 
O mosquito Aedes Aegypti transmite dengue, zika e chikungunya. Foto: Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas (20/12-2015)
O mosquito Aedes Aegypti transmite dengue, zika e chikungunya. Foto: Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas (20/12-2015)


2 – Como o Aedes se tornou capaz de transmitir três doenças? 

O que fez com que os casos de dengue se tornassem mais graves, se até 1950 a doença não provocava sequelas e nem alterações hematológicas, segundo a OMS? A Abrasco exorta o País a analisar melhor o que aconteceu nesse tempo.
Um aspecto que não está sendo devidamente estudado é a relação entre o que pode ter acontecido no nosso ambiente e o fato de Aedes estar transmitindo, além da dengue, essas duas doenças.  Não se sabe como isso ocorreu e faltam estudos para entender essa situação a partir do nosso contexto. 
Outra fragilidade apontada pelos participantes da Abrasco são os problemas com a vigilância adequada das febres zika e da  chikungunya. Elas tem sido gerenciadas como “dengue branda”.  

3 – Por que esse risco não foi considerado na Copa do Mundo e na construção de grandes empreendimentos em lugares sem saneamento?

A Abrasco aponta que houve uma intensificação do processos migratórios incentivada por grandes empreendimentos para regiões com condições sanitárias precárias – áreas que, coincidentemente registraram grande número de casos – como Suape – PE e  Pecém – CE. A Copa do Mundo de 2014, por exemplo, teve uma subsede em Recife. Lá, a Arena Pernambuco, que abrigou jogos, fica instalada no município de São Lourenço da Mata, uma região com precárias condições sanitárias.
Muitas regiões do Brasil, em especial a região Norte e Nordeste não contam com saneamento adequado, o que impossibilita o controle da epidemia. Foto: Agência Brasil
Muitas regiões do Brasil, em especial a região Norte e Nordeste não contam com saneamento adequado, o que impossibilita o controle da epidemia. Foto: Agência Brasil


4 – Larvicidas usados para matar a larva do mosquito são suficientes e eficazes? O governo está sendo totalmente aberto sobre os riscos desses produtos à saúde humana e ao meio ambiente? 

Mais um ponto importante: os sanitaristas afirmam que os larvicidas usados na água que essas famílias bebem há mais de 40 anos não implicaram na redução do número de doenças provocadas pelo Aedes Aegypti. Afora isso, apontam um problema que não tem sido explicitamente levado ao público, que são os potenciais danos à saúde causados por esses larvicidas.
Segundo a Abrasco, em 2014, no ano passado foi introduzido o uso de um novo químico: o Pyriproxyfen. 
Segundo o Ministério da Saúde, esse larvicida inibe o desenvolvimento do inseto. O mosquito cresce sem asas e sem órgãos reprodutivos. Fica, assim, no aspecto de ninfa ou larva. Mas 0 que não tem sido dito é o seguinte:

“Uma simples consulta às fichas de segurança química de tais produtos entregues pelas empresas aos órgãos de Saúde Pública mostra que esses produtos  são neurotóxicos para o sistema nervoso central e periférico, além de provocarem náusea, vômito, diarreia, dificuldade respiratória e sintomas de fraqueza muscular, inclusive nas concentrações utilizadas no controle vetorial. 
Quanto à toxicidade ambiental é recomendado evitar seu uso no meio ambiente, o que não tem sido observado, pois seu lançamento é feito da forma como aqui denunciamos”, diz a nota da Abrasco.

A entidade se preocupa com a utilização desses produtos químicos, que têm como único alvo o mosquito, sem considerar os danos para o que não é alvo, como o meio ambiente e o próprio sistema imune humano. A entidade lembra que a origem desses produtos são as armas de destruição em massa  amplamente utilizadas pelo exército norte-americano. Elas foram introduzidas no Brasil em 1968 – mesma época em que foram usadas, na guerra do Vietnã. 
O enfrentamento da epidemia passa por encarar os problemas sociais reincidentes no Brasil. Foto: Agência Brasil
O enfrentamento da epidemia passa por encarar os problemas sociais reincidentes no Brasil. Foto: Agência Brasil


5 – Água com larvicidas poderia estar ligada aos danos neurológicos?

Na nota da Abrasco, há um argumento central que precisa ser melhor avaliado. Em 2014, um novo químico foi introduzido na água para matar larvas do Aedes: o Pyriproxyfen, já descrito acima. Ok, mas qual o problema? 
Esse produto não segue as normas técnicas e padrões de segurança nem para o uso em agricultura, o que dizer do uso na água? A Abrasco se pergunta como essa decisão foi tomada sem levar em consideração os níveis tóxicos para consumo humano. Agora, depois do recrudescimento da epidemia, está sendo preconizado o uso de larvicida diretamente nos carros-pipas que distribuem água nas regiões do Agreste e Sertão do Nordeste. 

“O que dizer desse uso [de um produto tóxico] em um contexto epidêmico de má formação fetal?”, questiona a nota da Abrasco.  

A entidade não chega a fazer uma relação direta entre o larvicida e a má formação, mas as informações que reúne permitem a dúvida. A Abrasco afirma que o larvicida causa problemas neurológicos, diz que ele vem sendo usado na água, e indaga como situar isso em um contexto de má formação fetal. Em tom crítico em sua nota, a Abrasco diz que “como se sabe, foi decisão do Ministério da Saúde (MS) imputar a associação da epidemia de microcefalia à infecção materno-fetal pelo vírus da Zika, supostamente introduzido no Brasil em 2014, no Nordeste brasileiro.” 
Na opinião do infectologista Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arbovírus, porém, não resta dúvida sobre a correlação entre o zika vírus e a síndrome que debilita cérebro dos bebês durante a gestação. Para ele, as características clínicas e epidemiológicas definem a microcefalia como uma consequência associada à infecção pelo Zika vírus. “Não sabemos, porém, a sua fisiopatologia. Isto é, como a como a infecçcão causa o dano. Pode inclusive haver co-fatores associados, dentre eles o uso de produtos químicos”, diz o especialista. 

6 – Quais são os caminhos para fugir do modelo “mata-mosquito”?

a) Revisão completa das estratégias do controle de combate ao mosquito, com foco na eliminação do criadouro, sem agentes químicos na água potável
A Associação Brasileira de Saúde Coletiva pede uma revisão completa das estratégias de controle do mosquito. 
O foco deve ser a ELIMINAÇÃO DO CRIADOURO e não o mosquito como centro da ação; com a suspensão do uso de produtos químicos e adoção de métodos mecânicos de limpeza e de saneamento ambiental. Nos reservatórios de água de beber, utilizar medidas de limpeza e proteção da qualidade da água e garantia de sua potabilidade”, diz a nota.
A entidade também pede a suspensão imediata do larvicida e de produtos altamente tóxicos na água potável. É preciso também acabar com o fornecimento intermitente e regularizar o abastecimento de água – “um direito humano”. 
b) Análise dos efeitos da exposição a agentes químicos e auditoria
Mais um ponto é o estudo urgente dos efeitos da exposição a produtos químicos utilizados no controle vetorial do Aedes aegypti. Também uma auditoria precisa ser feita nessas estratégias, segundo a Abrasco. 
c) Intensificação dos programas de saneamento básico
Imprescindível ainda, diz a organização, que as políticas urbanas e de saneamento ambiental promovam programas integrados para a resolução dos problemas de moradia, saneamento e urbanização.
Fonte/Revista Brasileiros

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