sexta-feira, 4 de setembro de 2015

'Nunca imaginei que uma foto pudesse ter esse impacto', diz fotógrafa que clicou menino sírio

Nilufer Demir, uma fotógrafa da imprensa turca, estava fotografando um grupo de imigrantes paquistaneses na praia quando encontrou o corpo sem vida de Alan Kurdi.
Demir fez o que qualquer fotógrafo faria: tirou fotos. Sua foto mais forte – não publicada pela BBC – mostrava o garoto sírio de três anos de idade caído sozinho e com o rosto enterrado na areia. Suas mãos estavam abertas e viradas para cima.
"Eu tive que tirar a foto e não hesitei", afirmou ela à agência de notícias onde trabalha, a DHA. "A única coisa que eu podia fazer é ter certeza de que essa tragédia fosse vista".
Ela não previa a comoção que a imagem teria na Europa e no mundo. "Eu nunca acreditei que uma foto poderia causar esse impacto", disse. "Eu gostaria que isso mudasse o curso das coisas".
Pode-se dizer que a foto não apenas documentou, mas influenciou o desenrolar da crise dos refugiados na Europa. Mas como uma única imagem teve sucesso enquanto tantas outras iniciativas falharam? E por que aquela imagem em particular?
Will Wintercross é um premiado fotógrafo de guerra do jornal britânico Daily Telegraph que trabalhou na Síria e recentemente fundou uma instituição de caridade para refugiados sírios. Ele disse que já tirou fotos similares.
"Fotos como como essa são tiradas o tempo todo, mas não necessariamente enviadas (pelas agências de notícias aos veículos de mídia) sempre, por que são muito fortes", disse. "A maioria delas dificilmente é vista por alguém".
'Na Síria você vê tantas imagens horríveis que começa a filtrar o que não vale a pena fotografar... você simplesmente sabe que algumas fotos jamais serão usadas".

Prestar atenção

O fato de a foto de Demir não ter sido tirada na Síria foi fundamental para essa reação, segundo ele.
"Essa foto não foi tirada em uma zona de guerra, não foi tirada na Síria... O fato de que isso aconteceu em uma praia da Turquia fez as pessoas prestarem atenção".
Além disso há a composição da imagem, terrível mas não sangrenta como a maioria das fotografias de guerra. A foto é chocante, mas metade do efeito vem do subconsciente – quando você preenche as lacunas", ele afirmou.
É uma foto bem pacífica e de alguma maneira respeitosa, mas faz você pensar imediatamente: o que pode ter causado isso? Por que há uma criança morta na praia? Esses pensamentos são mais viscerais para quem tem filhos.
O premiê britânico, David Cameron, reforçou essas reações no Twitter quando afirmou que, "como pai", ele se sentiu profundamente tocado.
Nicole Itano é responsável pelo trabalho criativo da organização Save the Children. Ela também é mãe de uma menina de um ano.
"Minha primeira reação foi, meu Deus, poderia ser a minha filha, que tem a mesma cor de cabelo com as mesmas pernas gordinhas", ela disse.
"Ele parece que pode ser nosso filho".

Muitas organizações, incluindo a BBC, decidiram não usar a imagem mais chocante do corpo de Alan. Já o jornal britânico Independent publicou a foto em sua capa.

"Não foi uma decisão fácil", disse Will Gore, um dos editores do jornal. "Nossa visão foi a de que essa imagem era claramente algo diferente das imagens que vimos antes e ela surgiu em um momento em que o debate sobre o que fazer parecia levar a parte alguma".
"Tivemos a forte sensação de que precisávamos publicar a imagem da tragédia dessa criança. A decisão de usar aquela imagem em particular foi baseada na natureza de sua expressividade. A imagem que a maioria das pessoas usou, do menino sendo carregado, é extraordinariamente forte, mas sentimos que se íamos mostrar o real horror do que aconteceu a ele, aquela era a melhor imagem".
É raro ver a figura de um corpo morto no jornal. Muitos, como a Save the Children, usam regras vagas de que imagens de corpos não devem ser impressas. Isso é por uma boa razão, segundo Gore: "É correto que você raramente use imagens de morte, caso contrário elas podem perder seu poder".
Segundo Wintercross, é preciso chegar a um equilíbrio. "Acho que agimos com segurança demais, mas é difícil porque você não pode bombardear as pessoas com isso. E se houver cinco crianças mortas na praia na semana que vem, quando você para? Até onde você vai?"
Além disso, não há foto "que possa ir além disso agora", ele disse.
"As pessoas viram muitas outras imagens dessa guerra, mas aquela imagem parecia resumir todas as outras fotos de jornais e noticiários televisivos. Parece que todo o resto culminou em uma foto".

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